• Glaucius Nascimento

Avaliação Ultrassonográfica do Colo Uterino para a Predição de Parto Prematuro

Inúmeros trabalhos na literatura enfatizam a importância do rastreio para avaliação do risco de parto prematuro através da mensuração do comprimento do colo do útero pela ultrassonografia transvaginal. A Fetal Medicine Foundation desenvolveu uma calculadora para cálculo deste risco através do comprimento do colo do útero em milímetros.  Tal calculadora de risco é disponível no link https://fetalmedicine.org/research/assess/preterm/cervix . Além disso, outra calculadora interessante para análise do risco de parto prematuro de acordo com a história da cliente é disponibilizada no link https://fetalmedicine.org/research/assess/preterm


Medida do comprimento cervical

Técnica


Ao medir o comprimento do colo uterino na ecografia transvaginal:

  1. A mulher deve esvaziar a bexiga e então posicionar-se em ducúbito dorsal na posição litotômica.

  2. O transdutor deve ser introduzido, direcionando-o ao fórnix anterior. Cuidado deve ser tomado para que pressão excessiva não seja exercida contra o colo, a qual pode aumentar artificialmente a medida cervical.

  3. Uma aquisição sagital do colo uterino deve ser obtido e a mucosa endocervical, a qual pode ser hiperecogênica ou hipoecogênica em relação à cérvix, deve ser utilizada como um guia para a localização do orifício interno (OI) do colo, evitando assim, confusão com o segmento inferior do útero.

  4. Os calipers são usados para medir a distância linear entre a área triangular mais ecogênica no orifício externo (OE) e a incisura em formato de V no OI.

  5. Cada exame deve ser realizado ao longo de 2-3 minutos. Em cerca de 1% dos casos o comprimento cervical pode mudar devido a contrações uterinas e, nesses casos, a medida mais curta  é a que deve ser utilizada.

Reprodutibilidade da técnica. A medida transvaginal do comprimento cervical é altamente reprodutível e em 95% dos casos a diferença entre duas medidas realizadas pelo mesmo examinador ou por dois examinadores diferentes é ao redor de 4 mm ou menos.

A melhor forma para se medir o comprimento cervical é através da ultrassonografia transvaginal.

A ultrassonografia transabdominal falha em visualizar o colo em grande parte dos casos, principalmente naqueles com colo curto. Além disso, para se obter visibilidade adequada é necessário a bexiga cheia, o que falsamente aumenta o comprimento cervical.

Transperinealmente o colo pode ser examinado colocando-se o transdutor curvilíneo sagitalmente entre os grandes lábios.

  1. O colo do útero é adequadamente visualizado em cerca de 80% das pacientes e a medida do comprimento cervical obtida por essa técnica é semelhante às medidas obtidas pela técnica transvaginal.

  2. No entanto, em cerca de 20% dos casos a cérvix não pode ser visualizada ou o OI  ou OE ficam obscurecidos por um artefato que não pode ser eliminada apesar de movimentos verticais do transdutor ou de angulação lateral e rotação.

Colo curvo

O colo uterino é frequentemente curvo, e nesses casos, a medida do comprimento cervical realizada através de uma linha reta entre os OI e OE é, inevitavelmente, mais curta do que uma medida feita ao longo do canal endocervical.

  1. Do ponto de vista clínico, o método usado para medir o comprimento cervical não tem importância, uma vez que quando o colo está curto,  está também reto.

Afunilamento cervical

A dilatação do OI, observada sonograficamente como um afunilamento, não é nada além de um simples reflexo do processo de encurtamento que irá eventualmente resultar em parto prematuro. Quase todas as mulheres com colo curto tem afunilamento do OI.

  1. Mulheres com um colo longo e afunilamento não tem um risco aumentado para parto prematuro.

Aplicação clínica

Predição de parto prematuro (PP)


A medida sonográfica do comprimento cervical é clinicamente útil nas seguintes situações:

  1. Nas mulheres assintomáticas com antecedente de parto prematuro e naquelas com anormalidades uterinas, tal como útero unicorno, o comprimento do colo uterino deve ser medido a cada 2 semanas entre 14 e 24 semanas.

  2. Nas mulheres assintomáticas sem história prévia, a medida do comprimento cervical deve ser realizada rotineiramente na ultrassonografia de segundo trimestre entre 20-24 semanas de gestação.

Predição de parto a termo


A medida sonográfica do comprimento cervical é clinicamente útil na predição do momento do parto a termo:

  1. Nas mulheres com parto cesáreo programado, a medida do comprimento cervical na 37a semana pode ajudar na decisão em realizar o parto entre 37-38 semanas ou esperar até 39-41 semanas.

  2. Nas mulheres com indicação de indução do parto, a medida do comprimento cervical, antes do início da indução, dá informação útil referente ao intervalo indução-parto, a probabilidade de parto vaginal e a probabilidade de cesárea.

Impacto da morte neonatal


Cerca de 130 milhões de bebês nascem todo ano no mundo e destes, 4 milhões morrem nas primeiras quatro semanas de vida, o período neonatal.

Em geral, as principais causas diretas de morte neonatal são parto prematuro, infecções severas e asfixia.

Nos países desenvolvidos, o parto prematuro é responsável por cerca de metade de todas as mortes neonatais.

Incidência


A taxa de parto prematuro não diminuíu nos últimos 50 anos e na maioria dos países desenvolvidos a taxa continua a crescer apesar dos avanços no conhecimento dos fatores de risco e mecanismos relacionados ao trabalho de parto prematuro.

Existem basicamente duas razões para essa falha na redução da taxa de parto prematuro:

  1. Ausência de um teste de rastreio eficaz para identificar as mulheres com alto risco.

  2. Ausência de um método eficaz de intervenção para prevenir esta complicação.

Classificação


Um terço dos parto prematuros acontecem por indicação médica, principalmente devido a pré-eclâmpsia e restrição de crescimento intrauterino (RCIU). Dois terços são espontâneos devido ao início prematuro do trabalho de parto ou ruptura prematura das membranas.

Todos os nascimentos antes de 37 semanas de gestação são definidos como prematuros e são subdivididos de acordo com a idade gestacional em que acontecem:

  1. Extremo (<28 semanas), o qual acontece em cerca de 0.25% das gestações.

  2. Precoce (28-30 semanas), o qual acontece em cerca de 0.25% das gestações.

  3. Moderado (31-33 semanas), o qual acontece em cerca de 0.6% das gestações.

  4. Tardio (34-36 weeks), o qual acontece em cerca de 3.0% das gestações.

O risco de óbito fetal ou sequelas está aumentado, principalmente nos subgrupos extremo, precoce e moderado. A prevalência de parto espontâneo antes de 34 semanas é ao redor de 1%.


  1. Centre for Maternal and Child Enquiries (CMACE) Perinatal Mortality 2009: United Kingdom. CMACE: London, 2011.

Predição


Existem essencialmente dois grupos de grávidas que contribuem para os partos espontâneos antes de 34 semanas:

  1. 15% desses partos são originários de um grupo de mulheres com história prévia de abortamento tardio ou parto prematuro espontâneo. Esse grupo constitui cerca de 3% do total de grávidas. Nessas mulheres o risco de recorrência é inversamente proporcional à idade gestacional no parto prematuro anterior.

  2. 85% desses nascimentos são originários dos 97% de mulheres que estão em sua primeira gravidez ou das quais as gestações anteriores resultaram em nascimentos a termo.

Consequentemente, qualquer estratégia para reduzir a taxa de partos prematuros que foca no subgrupo de mulheres com partos prematuros anteriores teria um pequeno impacto na taxa geral de partos prematuros.


Existem essencialmente duas estratégias para identificar o grupo de alto risco dentre as mulheres que estão na primeira gestação ou dentre as quais as gestações anteriores resultaram em partos a termo:

  1. Fibronectina fetal cérvico-vaginal entre 22-24 semanas. Fibronectina fetal é uma glicoproteína da matriz extracelular produzida por citotrofoblastos e amniócitos. Fica localizada entre o córion e a decídua onde atua como uma “cola” entre o útero e a gravidez. A fibronectina fetal pode ser detectada nas secreções cérvico-vaginais em todas as gestações, em altos níveis antes de 22 semanas, mas em baixos níveis (menos que 50 ng/mL) entre 22ª-24ª semanas. Medir a fibronectina fetal na 22ª-24ª semana é útil para predizer gestações com risco aumentado para parto prematuro espontâneo. Na 22ª-24ª semana o teste é positivo em 5% das mulheres e este grupo contém 25% das gestações com parto prematuro espontâneo (sPP) antes de 34 semanas.

  2. Comprimento cervical na 20ª-24ª semana, nas gestações com  parto a termo, está normalmente distribuído em uma média de 34 mm. Nas gestações com sPP antes de 34 semanas observa-se uma distribuição bimodal do comprimento cervical. O comprimento cervical é <15 mm em 1% das mulheres e este grupo contém 20% dos casos de sPP antes de 34 semanas. O comprimento é <25 mm 10% das mulheres e este grupo  contem 40% dos casos de sPP antes de  34 semanas.

O risco de parto prematuro espontâneo (sPP) está aumentado no grupo de mulheres com história prévia de sPP e este, está relacionado à idade gestacional na qual o parto prematuro ocorreu. Adicionalmente, o risco de PP é inversamente relacionado ao comprimento cervical entre 20-24 semanas de gestação na gravidez atual.

Um modelo combinando o comprimento cervical com a história obstétrica é melhor preditor de parto prematuro espontâneo do que cada fator isolado e a sensibilidade do rastreio melhora quanto maior o grau de prematuridade.

  1. Para uma taxa de rastreio positivo de 10%, a taxa de detecção é de 80% para nascimentos antes de 28 semanas de gestação, de 60% para nascimentos entre 28-30 semanas e de 50% para partos entre 31-33 semanas.

Cálculo de parto prematuro

Quando você obtiver o certificado de competência da FMF em rastreio cervical, você terá acesso a este programa, o qual permitirá você avaliar o risco de parto prematuro espontâneo.


Prevenção do parto prematuro

De acordo com os antecedentes obstétricos


Estudos investigando a importância das medidas preventivas têm focado essencialmente em dois grupos de mulheres:

  1. Mulheres com história prévia de parto prematuro.

  2. Mulheres sem história prévia, mas com risco aumentado de parto prematuro definido através de um teste de rastreio.

Mulheres com história prévia de parto prematuro


Nenhum benefício em reduzir o risco de recorrência tem sido demonstrado pelos seguintes métodos:

  1. Repouso no leito no hospital ou em casa é largamente recomendado para a prevenção de parto prematuro, porém não há evidência científica que suporte esta prática. Na verdade, estudos randomizados em gestações gemelares mostraram que repouso no leito aumenta o risco de parto prematuro. O repouso no leito também pode ter alguns efeitos colaterais, incluindo aumento do risco de trombose venosa, atrofia muscular e  estresse.

  2. Betamiméticos prescritos profilaticamente.

  3. Mudanças no estilo de vida como redução das horas de trabalho, aumento na frequência de consultas pré-natais, suporte psicológico, suplementação da dieta com ferro, folato, cálcio, zinco, magnésio, vitaminas ou óleo de peixe.





Benefícios em reduzir o risco de recorrência tem sido provado nas duas estratégias a seguir:

  1. Cerclagem cervical reduz o risco de parto antes de 34 semanas em cerca de 25%. Existem duas opções de conduta de pacientes com história prévia de parto prematuro. A primeira seria a cerclagem eletiva em todas as mulheres logo após a ecografia de 11-13 semanas com um feto sem anomalias maiores. A segunda opção seria medidas seriadas a cada duas semanas e cerclagem somente se a medida do colo uterino se tornar menor que 25 mm. A taxa de parto prematuro é semelhante com as duas abordagens, contudo a segunda forma de acompanhamento é preferível, pois reduz a necessidade de cerclagem em cerca de 50%.

  2. Progesterona utilizada de 20 a 34 semanas reduz o risco de parto antes de 34 semanas em cerca de 25%. A progesterona pode ser administrada em forma de pessário vaginal do produto natural (200 mg) toda noite, ou na forma injetável intramuscular, na versão sintética do produto, a 17 alfa-hidroxiprogesterona (250 mg). Progesterona natural é preferível devido a ausência de indesejáveis efeitos colaterais como sonolência, cansaço e dores de cabeça. Adicionalmente existe alguma preocupação de que injeções de 17-OHP-C podem aumentar o risco de óbito fetal.





  1. Não há benefícios em repouso no leito, tocolíticos profiláticos ou mudanças no estilo de vida

  2. Pessário vaginal de progesterona toda noite da 20a até a 34asemana reduz a taxa de parto prematuro em 25%

  3. Medida do comprimento cervical a cada 2 semanas entre a 14ae 24a semana e cerclagem cervical se a medida do colo uterino se tornar menor que 25 mm reduzem a taxa de parto prematuro em 25%


Mulheres com inflamação ou infecção


Em mulheres com o teste de fibronectina fetal positivo o risco de parto prematuro está aumentado, mas não é reduzido pelo uso de antibióticos.

Vaginose bacteriana é um desequilíbrio da flora vaginal causada pela redução dos lactobacilos normais e crescimento importante da flora anaeróbia mista, incluindo Gardnerella vaginalis, Micoplasma hominis e Mobiluncus species. Vaginose bacteriana está presente em cerca de 20% das mulheres durante a gestação e na maioria dos casos são assintomáticas.

  1. O risco de parto prematuro é duas vezes maior em mulheres com vaginose bacteriana e pode ser aumentado em 5 vezes se a infecção estiver presente antes das 16 semanas.

  2. Antibióticos podem erradicar a vaginose bacteriana durante a gestação, mas não reduzem o risco de parto prematuro espontâneo. No entanto mais investigações são necessárias  para determinar se o tratamento com antibióticos antes das 16 semanas pode reduzir o risco de parto prematuro.

Em mulheres com bacteriúria assintomática o risco de parto prematuro e pielonefrite está aumentado. Antibióticos reduzem o risco de pielonefrite, porém não reduzem o risco de parto prematuro espontâneo.

Mulheres sem história prévia de parto prematuro, mas com teste de rastreio positivo

  1. Fibronectina fetal positiva. Antibióticos não diminuem, ao contrário, aumentam o risco de parto prematuro.

  2. Vaginose bacteriana. Antibióticos não reduzem o risco de parto prematuro. Talvez a antibioticoterapia seja útil se administrada antes da 16a semana.

  3. Colo curto entre 20-24 semanas. Cerclagem cervical pode reduzir o risco de parto prematuro antes de 34 semanas em 15%.

  4. Progesterona em pessário vaginal toda noite da 20a a 34asemana reduz o risco em cerca de 35-40%.


Mulheres com colo curto


Em mulheres com colo curto (<25mm) diagnosticado em uma ecografia transvaginal de rotina entre 22-24 semana, três estratégias tem sido utilizadas para reduzir o risco de parto prematuro (PP):

  1. Progesterona vaginal, em gestações únicas com colo curto, reduz a taxa de parto prematuro espontâneo antes de 34 semanas em cerca de 35-40%.

  2. Cerclagem cervical, em gestações com feto único, com colo curto e sem história prévia de parto prematuro, reduz o risco de parto espontâneo antes de 34 semanas em somente 15%.

  3. Pessário cervical, em gestações únicas com colo curto, tem sido observado em estudos clínicos randomizados, os quais reportaram resultados contraditórios em relação aos benefícios deste em reduzir o parto prematuro.


Gestaç?es gemelares com colo curto


A taxa de parto prematuro antes de 34 semanas em gestaç?es únicas é cerca de 2% e em gestaç?es gemelares, 15%. Em ambas, gestaç?es únicas e gemelares, a taxa de parto prematuro é inversamente relacionado ao comprimento cervical entre 20-24 semanas de gestação.

Em gestações gemelares com colo curto (<25 mm) diagnosticado através da ultrassonografia transvaginal entre 20-24 semanas, três estratégias tem sido utilizadas para reduzir o risco de parto prematuro (PP):

Progesterona vaginal entre 20-34 semanas pode reduzir a taxa de parto prematuro espontâneo antes de 34 semanas em até 30%.

Cerclagem cervical pode aumentar a taxa de parto prematuro espontâneo antes de 34 semanas.

Pessário cervical usado aleatoriamente em gestações gemelares não reduz a taxa de parto prematuro espontâneo antes de 34 semanas.

  1. Romero R, Conde-Agudelo A, El-Refaie W, Rode L, Brizot ML, Cetingoz E, Serra V, Da Fonseca E, Abdelhafez MS, Tabor A, Perales A, Hassan SS, Nicolaides KH. Vaginal progesterone decreases preterm birth and neonatal morbidity and mortality in women with a twin gestation and a short cervix: an updated meta-analysis of individual patient data. Ultrasound Obstet Gynecol 2017;49:303-314.

  2. Nicolaides KH, Syngelaki A, Poon LC, de Paco Matallana C, Plasencia W, Molina FS, Picciarelli G, Tul N, Celik E, Lau TK, Conturso R. Cervical pessary placement for prevention of preterm birth in unselected twin pregnancies: a randomized controlled trial. Am J Obstet Gynecol 2016;214:3.e1-9.

Em resumo


Em gestações únicas, nas mulheres com parto prematuro prévio, a taxa de recorrência é reduzida em cerca de 25% tanto pela administração profilática de progesterona quanto por cerclagem cervical.

Em gestações únicas, nas mulheres sem história de parto prematuro prévio, mas com colo curto (<25mm) diagnosticado em ecografia de rotina às 20-24 semanas, o risco de parto prematuro espontâneo antes de 34 semanas é bastante alto, e este risco é reduzido em cerca de 35-40% com a administração profilática de progesterona.

Em gestações gemelares a taxa de parto prematuro espontâneo antes de 34 semanas é cerca de 15%, comparada com 2% nas gestações únicas.

  1. Repouso no leito está associado com aumento de parto prematuro.

  2. Cerclagem cervical está associada com aumento de parto prematuro.

  3. Progesterona vaginal pode reduzir o risco de parto prematuro antes de 34 semanas em até 30%.

Ameaça de trabalho de parto prematuro

Conduta


Mulheres com ameaça de trabalho de parto prematuro são frequentemente tratadas com:

  1. Hospitalização em serviços com unidade de tratamento intensivo neonatal.

  2. Administração de tocolíticos para prevenir o parto prematuro.

  3. Administração de esteróides para amadurecimento pulmonar.

No entanto, estudos randomizados sobre o uso de tocolítico em ameaça de trabalho de parto prematuro, tem demonstrado um prolongamento significativo da gestação em cerca de sete dias, mas sem redução importante na incidência de parto prematuro. Consequentemente, o objetivo principal dos tocolíticos é de prolongar a gestação por alguns dias para a adiministração adequada e eficaz de esteróides para o amadurecimento fetal pulmonar, e não a prevenção do parto prematuro como tal.

Conduta na ameaça de trabalho de parto prematuro

Distinguir entre trabalho de parto prematuro verdadeiro e falso:

  1. Comprimento cervical

  2. Fibronectina fetal cérvico-vaginal

Naquelas com trabalho de parto prematuro verdadeiro:

  1. Hospitalização

  2. Tocolíticos para retardar o parto

  3. Esteróides para amadurecimento fetal pulmonar

Medida do comprimento cervical


A maioria das mulheres (mais de 90%) que chegam ao serviço de emergência obstétrica com dor e contrações uterinas regulares entre 24-36 semanas de gestação não apresentam trabalho de parto verdadeiro e não chegam ao parto nos sete dias subsequentes.

Hospitalização e administração de tocolíticos e esteróides devem ficar reservados às mulheres que estão realmente em trabalho de parto, e estas podem ser identificadas através da medida ecográfica transvaginal do colo uterino e/ou pelo teste de fibronectina fetal positivo em secreções cérvico-vaginais quando se apresentam ao serviço de emergência.

A taxa de parto nos 7 dias subsequentes, no grupo de mulheres com ameaça de trabalho de parto prematuro, é inversamente relacionado ao comprimento do colo uterino na chegada ao serviço de emergência. O comprimento cervical é <20mm em cerca de 20% das mulheres com ameaça de trabalho de parto prematuro e este grupo contém 75% daquelas que parem nos 7 dias subsequentes. Nas pacientes com comprimento cervical >20mm, o risco de parto nos próximos 7 dias é de aproximadamente 3%.

O teste de fibronectina fetal é positivo em cerca de 20% das mulheres com ameaça de trabalho de parto prematuro e este grupo contém 75% daqueles que parem em até 7 dias. Se o teste for negativo, o risco de parto em até 7 dias é de 3%.

A associação da medida do comprimento cervical com a fibronectina fetal poderia potencialmente reduzir a taxa de rastreio positivo para 5% (melhor do que 20% com cada método isoladamente) e também reduziria o risco de parto nos próximos 7 dias para 1% naquelas com um teste combinado negativo.


  1. Sotiriadis A, Papatheodorou S, Kavvadias A, Makrydimas G. Transvaginal cervical length measurement for prediction of preterm birth in women with threatened preterm labor: a meta-analysis. Ultrasound Obstet Gynecol 2010;35:54-64.

  2. Boots AB, Sanchez-Ramos L, Bowers DM, Kaunitz AM, Zamora J, Schlattmann P. The short-term prediction of preterm birth: a systematic review and diagnostic metaanalysis. Am J Obstet Gynecol 2014;210:54.e1-54.e10.

Polidrâmnio

Causas


Polidrâmnio no 2° trimestre e no início do 3° trimestre é encontrado em cerca de 1 em 200 gestações.

Existem, essencialmente, duas causas principais:

Deglutição fetal reduzida, pode ser devido a doenças neuromusculares, tumores faciais e do pescoço, obstrução gastrointestinal, defeitos pulmonares compressivos, ou caixa torácica estreita devido a displasias esqueléticas.

Aumento do volume urinário fetal, evento observado em casos de diabetes materna, circulação fetal hiperdinâmica (por anemia fetal, tumores fetais ou da placenta, malformações arteriovenosas), ou por sídrome de transfusão feto-fetal.

Conduta


A conduta nas gestações com polidrâmnio tem com objetivos:

  1. Diagnóstico e tratamento da doença de base, incluíndo controle glicêmico da diabetes mellitus materna, shunts tóraco-amnióticos para cistos pulmonares fetais ou derrames pleurais, transfusão sanguínea intrauterina para anemia fetal, oclusão por laser de anastomoses placentárias nos casos de síndrome de transfusão feto-fetal ou de vasos “alimentadores” em tumores fetais e da placenta.

  2. Reduzir o risco de parto prematuro extremo através de repetidas amniocenteses e drenagem de grandes volumes de líquido amniótico. No entanto, o procedimento por si só pode precipitar parto prematuro e a amniocentese é reservada aos casos onde o comprimento cervical é menor que 15 mm ou quando ecografias semanais de controle demonstram um encurtamento progressivo do colo para menos de 25 mm.

Um método de tratamento alternativo e eficiente é a administração de indometacina para a mãe; no entanto, essa medicação pode causar fechamento precoce do ducto arterioso fetal e por isso, acompanhamento com ecocardiografia fetal seriada, é necessário.


Momento adequado para cesárea eletiva

Medida do comprimento cervical


Existe uma contradição no momento adequado da cesareana eletiva, as quais são tradicionalmente realizadas às 38 semanas.

  1. Esperar além de 38 semanas, resultará em muitas mulheres entrando em trabalho de parto espontâneo e, consequentemente, uma cesárea eletiva será convertida em emergencial, com aumento da morbidade e mortalidade materna.

  2. O risco de morbidade respiratória é reduzido pela metade a cada semana completa da gestação entre 37 e 41 semanas.

A medida do comprimento cervical às 37 semanas é útil para prever o início espontâneo do trabalho de parto e nascimento a termo. Esta informação pode ser utilizada para individualizar a idade gestacional para a cesárea eletiva:

  1. Em mulheres com o comprimento cervical menor que 20 mm, existe uma chance de 95% de início do trabalho de parto espontâneo antes de 40 semanas. Nessas pacientes, a cesárea eletiva deve ser realizada entre 37-38 semanas a fim de evitar o risco aumentado de morbimortalidade materna devido a uma cirurgia de emergência se comparada a uma eletiva.

  2. Em mulheres com comprimento cervical maior que 30 mm, a chance de que o início de trabalho de parto espontâneo não acontecerá antes de 40 semanas é de 95%. Nessas pacientes a cesárea poderia ser retardada até 40 semanas a fim de reduzir a morbidade respiratória neonatal.

Gestação prolongada

Implicações


Em 5-10% das mulheres, a gestação continua além de 294 dias (42 semanas completas) e são definidas como prolongada ou pós termo. Essas gestações estão relacionadas a um risco aumentado de tocotraumismo e asfixia ao nascimento; natimorto e óbito neonatal.

O risco de perda da gestação (óbito intrauterino, neonatal e infantil) aumenta de 1,2 em 1000 gestações às 38 semanas, para 2,4 às 40 semanas e 5,8 às 43 semanas.

Na conduta em gestações prolongadas, a indução do trabalho de parto, comparada com a conduta expectante, está associada a uma redução substancial da mortalidade perinatal. No entanto, aproximadamente 20% das mulheres que têm o trabalho de parto  induzido acabam necessitando de uma cesárea de emergência devido à falha de indução, falha na progressão do trabalho de parto ou sofrimento fetal. A taxa de cesárea depende da paridade, sendo cerca de 10% para multíparas e 30% em nulíparas.

Indução do trabalho de parto


Em mulheres que terão o trabalho de parto induzido, a medida do comprimento cervical, combinado com características maternas (paridade, idade gestacional, idade materna e índice de massa corpórea), fornece informação para a previsão do intervalo indução-nascimento, a probabilidade de nascimento vaginal nas próximas 24 horas e a probabilidade de parto cesáreo.

  1. Em mulheres com partos anteriores a probabilidade de cesárea por falha de indução, falha na progressão ou sofrimento fetal aumenta, de cerca de 2% com uma medida de colo de 1-10 mm (comprimento pré indução) para 20% quando o colo mede mais de 30 mm.

  2. Em mulheres nulíparas a probabilidade de cesárea por falha de indução, falha na progressão e sofrimento fetal aumenta, de cerca de 10% com uma medida de colo de 1-10 mm (comprimento pré indução) para 70% quando o colo mede mais 30 mm.

0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo